sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Transexuais e banheiros públicos

Nunca entendi porque existem bonequinhos nas portas dos banheiros, tudo sempre me irritou, as cores, o vestido pra sinalizar o feminino. Qual o motivo dessa insistência com banheiros pra mulheres e pra homens? Porque não um banheiro onde exista apenas uma porta, dentro um vaso sanitário e do lado de fora, espelho e pia?
A notícia de hoje no site da folha me fez lembrar desse meu incomodo com banheiros públicos. Sabe, assumo que meu conhecimento sobre transexuais é muito pequeno, queria conhecer mais trans, travestis e crossdresssers. Conheço um transexual pela internet e tenho uma amiga transexual, que conheço muito antes de se assumir, mas nossa proximidade é pequena graças a distância entre nossas cidades (ela mora em Sampa e eu em Juiz de fora). Também posso dizer que tenho um carinho e uma admiração enorme pelo Laerte, e que o conheci pessoalmente no rio comicon de 2010, fiquei tietando até não poder mais e falei o quanto fui inspirada por seus quadrinhos a ser o que eu sou hoje.
Acho que quando Laerte se assumiu crossdresser tive mais carinho e admiração pelo seu trabalho. Nessa sexta-feira me senti feliz em dizer “tá vendo aqui: orgulho de ser da mesma classe profissional que Laerte Coutinho!”
Uma vez eu sonhei que estava no corpo de uma outra pessoa. Eu, durante o sono, sabia que aquele não era meu corpo, mas não conseguia explicar isso as ouras pessoas a minha volta. Quando acordei, sentia uma angústia tão grande, tanto medo, só com um tempo de respiração, um copo de água e um calmante pra eu conseguir voltar ao normal. Imagino que a angústia que senti por um curto momento de minha vida é o que transexuais sentem enquanto não conseguem mudar de sexo. Uma sensação de se olhar no espelho e não se reconhecer, não saber quem você é, se sentir como se não se encaixasse na sua própria vida. Ser sensível talvez me faça entender realidades diferentes da minha, talvez seja só um pouco de sensatez pra entender que ningéem gostaria de viver nessa situação.
Mas, quando finalmente estão conseguindo se adaptar a sua identidade, fazendo o corpo se encaixar nos seus sentimentos, vem alguém que te dá um banho de água fria! É assim que acredito que se sente um@ transexual, travesti ou crossdresser que sofre alguma discriminação, seja a proibição do uso de um banheiro ou até mesmo o uso de um nome que não condiz com a sua identidade de gênero. Vejo muit@s afirmarem que é um abuso uma trans, travesti ou uma crossdresser no banheiro feminino. Não consigo enxergar esse abuso, enxergo o abuso no momento em que forçamos uma mulher a usar um banheiro masculino, se fosse elas, me sentiria constrangida. E o contrário também acontece, trans e travestis do sexo masculino, imagine só o constrangimento de usar um banheiro feminino se você é um homem. As vezes tento explicar a pessoas como deve ser torturante essa sensação de que não estão no lugar certo, como se não tivessem os mesmos direitos que outr@s, sofrendo com momentos incômodos onde são tratados com um preconceito desnecessário.
Hoje, ao falar do caso que Laerte foi protagonista, li que esse direito poderia ser usado como desculpa por homens heterossexuais pra entrar em banheiros e abusar de mulheres. Será que realmente isso é motivo pra tirar direitos de mulheres que já sofrem tanta discriminação (desnecessária)? Eu não acredito que um banheiro feminino seja respeitado por ser um local divino, onde homens não conseguem entrar por um poder de respeito e que um homem não entraria lá para abusar de mulheres. Acho que isso é uma desculpa pra manter tudo do jeito que está.
Eu comparo o sentimento de um@ transexual ao ser impedid@ de entrar em um banheiro como eu me sinto quando entro em um estabelecimento e sou tratada com racismo. Passei uma tarde inteira pensando no que escrever, como falar sobre o uso de banheiros por trans e travestis, conversei com meu querido amigo Marcelo e pensei em tantas formas de falar sobre essa sensação, mas acho que a única coisa que posso dizer é que eu espero que a inciativa do Laerte seja um exemplo pra vári@s trans, travestis e crossdressers não aceitarem calad@s a discriminação. E que como Laerte deu visibilidade a um caso de preconceito, devemos olhar isso tudo e rever nossos preconceitos, rever se vale a pena magoar uma pessoa por um motivo que não muda em nada a nossa vida.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Caso BBB 12

Daniel e Monique Foto: Frederico Rozário/Folhapress
Depois de muito debate e muita divulgação de postagens relacionadas a esse caso, a poeira baixou um pouco após a entrada da polícia na história, a expulsão do Daniel e o depoimento da Monique a polícia, mas ainda existem pessoas que não entendem o motivo de nossas reivindicações e revoltas com o acontecido.
O que mais e revoltou nesse caso foi que Monique ficou no escuro, sem saber o acontecido durante um bom tempo. Negou-se por muito tempo o ocorrido, tirando qualquer vestígio do acontecido dos sites de vídeos. O diretor do BBB, o Boninho, além de negar o acontecido ainda acusou tod@s nós, que exigíamos que fosse averiguado o caso de possível estupro, de racistas.
Independente dela dizer que tudo foi consentido, devemos entender que o grande problema dessa história toda é ver como o Brasil ainda se mantém machista, uma mulher não tem direito de beber , não tem direito de dar uns amassos em seu ficante, casinho ou namorado e depois recuar. Se começou tem que terminar, mesmo que a força. Se bebe é vadia e tem que fazer sexo. E, pra piorar, se já teve muitos parceiros sexuais tem que aceitar qualquer um e se disser não, o cara se acha no direito de fazer a força. Esse foi o maior erro, julgar o caráter de uma mulher por coisas tão ínfimas como essas.
Quando lutamos por esse caso, não estamos desmerecendo nenhum outro caso de estupro, seja ele como for, só estamos colocando em pauta uma forma de violência sexual que acontece com muita frequência e ninguém dá a devida importância. Eu tive a sorte de não passar por nada desse tipo, seja ser abusada pelo meu companheiro durante o sono, ou ficar inconsciente (seja por causa de bebedeira ou qualquer outro motivo) e ser violada por pessoas em quem confiei e que deveriam me socorrer. Mas sei que esse episódio poderia acontecer comigo ou com qualquer mulher.
Temos o costume de acreditar que um estupro é um ato de perseguição de uma mulher indefesa em ruas escuras, com uma arma apontada para a cabeça. Mas a maioria dos estupros são cometidos por namorad@s, ficantes, pais, amig@s, padrastos e demais familiares. Quando lutamos para que ela soubesse do acontecido e pudesse falar se houve ou não estupro, era simplesmente para que ela se lembrasse de toda a cena em que estava acordada, soubesse o que houve (se houve) enquanto ela estava dormindo e assim pudesse denunciar o possível agressor. Não esperamos que haja diferenças de atendimento entre as vítimas de estupro, seja como for que esse aconteça e independente da vítima beber, ter uma vida sexual ativa e com vários parceiros, ser virgem, maior de idade, criança, religiosa, ateia, homem (não podemos esquecer que homens também sofrem violências desse tipo) ou mulher. E quando lutamos contra o machismo e o julgamento das pessoas em esse caso é para que tanto a Monique quanto qualquer outra pessoa que sofra com um estupro possa ter seus direitos preservados.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Revolta!

Gente, eu estou tentando me desfazer desse sentimento de raiva, de revolta, de tristeza, de impotência que sinto desde quando me contaram ontem pela manhã o que aconteceu.
A história é longa e começou muito antes da madrugada de domingo, na noite anterior, Daniel bolinou Mayara, que se queixou, a resposta de Daniel foi apenas um "foi mal".
Monique estava bêbada, desacordada, em sono pesado e passou por um abuso sexual. Ela não foi pra cama com ele, começou um amasso e caiu no sono no meio desse amasso. E mesmo que isso acontecesse, não seria direito dele continuar sem seu consentimento. Afinal, é do direito dela escolher até onde vai. É prova de caráter de um homem não fazer nada com uma mulher inconsciente.
Sabe o mais curioso? Ele e a Globo estão aproveitando de sua amnésia alcoólica e de seu sono pesado graças ao álcool para manipular a situação e abafar todo o acontecido. E o nosso "querido amigo" Bial ainda teve a coragem de falar, após uma colagem tosca com momentos onde ela se mexia para parecer que foi tudo um amasso, que o "amor é lindo". Como não sentir nojo desse acontecimento?
Sabe, eu bebo, em muitos momentos eu bebo muito! E, sim, eu sei que há possibilidade de um sono ser tão pesado a ponto de não acordarmos com o teto caindo na nossa cabeça. Eu sei bem o que é isso e tenho a sorte de nunca ter ficado assim em algum lugar onde eu estaria vulnerável. Mas quantas mulheres fora da casa do BBB não passam por isso todos os dias? Sabe, esse assunto é muito maior do que a Globo estar abafando um caso de estupro dentro da casa. A reação do público me assusta.
Li absurdos sobre a menina, sobre a cor da pele do Daniel. Monique foi julgada como culpada por muitos da possível violência sofrida simplesmente por ter bebido e se insinuado. E existem pessoas que creditam a falta de caráter do possível agressor a sua cor de pele. Não se trata de só um problema dentro do BBB, é um reflexo da nossa sociedade, que adora falar que não é racista ou machista, mas que no momento de julgar pessoas ainda o faz e com muito preconceito.
Cansada e enojada com os comentários no Twitter, no Facebook e pela frase do Bial que encerrou o caso para a Globo, só posso dizer uma coisa: "Pára o mundo que eu quero descer!"
Será tão difícil de entender que nenhum homem tem o direito de fazer sexo com uma mulher sem consentimento e que, se a mulher está desacordada, ela não pode consentir nada? Só queria deixar minha revolta ao acontecimento, as atitudes da emissora, do Daniel e da nossa sociedade!

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Jack Johnson

Hoje fuçando meu hd externo, achei a discografia do Jack Johnson. Fazia alguns meses que não ouvia, decidi pegar pra ouvir hoje o dia todo. A música dele me traz uma certa calma, tão parecida com a calma que o reggae me traz, e ao mesmo tempo me mantém nostálgica como o Rock faz comigo. Gosto da batida do seu primeiro cd, bem calmo, um exemplo disso é a música F-Stop Blues, quando são mais agitadas, ainda mantém um ritmo mais tranquilo, ideal para relaxar, namorar.

Seu segundo cd tem também essa tranquilidade, mas eu digo que é música típica de ir para a praia, ou para ouvir durante uma viagem olhando pela janela. Tem uma música mais deprê, que acho linda, Cocoon.

De resto, todas têm batidas alegres, destaco a música Cookie Jar. Esse cd já tem letras mais cabeça que o primeiro cd, isso é fato.

O terceiro cd já é mais popular, mais agitado, feito pra ser comercializado. Ele tem o grande Boom dele na MTV Sitting, Waiting, Wishing. Acho a letra e a melodia lindas!

Também tem uma música mega gostosa de ouvir chamada Banana Pancakes. Que eu adoro, me dá vontade de correr na chuva toda vez que ouço e depois tomar chocolate quente com panquecas doces!

O quarto cd é bem mais experimental, eu considero o melhor dele, sem dúvida alguma! A música título é muito boa, tem uma levada legal. O cd é como se fosse uma música só dividida em várias faixas. Dá pra sentir a continuidade o tempo todo.

O quinto cd dele eu conheço muito pouco, não tenho ainda, conheço a música de trabalho do cd, uma curiosidade que li sobre ele é que foi todo gravado em estúdios abastecidos por energia solar.

Ultimamente, Jack Johnson é um dos poucos músicos que vale a pena de se ouvir, não tenho gostado de muita música atual, acho que estou ficando chata. rsrsrs

De volta!

Então, já estava mais do que na hora de tirar as teias de aranha desse blog. O que acontece é que a autora anda tão sem ideia que não sabe nem como começar um post.
Ando revendo muitas coisas em minha vida, pesei seriamente em rever a existência desse blog, quase o deletei, mas o mantive por aqui, meio desengonçado, com assunto esparsos, blogagens coletivas e acho que agora também o utilizarei para escrever estudos próprios, de leituras acadêmicas. Penso em pelo um post semanal com assuntos relacionados aos meus trabalhos, mas preciso começar devagar, farei posts desse tipo de 15 em 15 dias, quando começar a entrar no clima, aumento pra posts semanais.
Sei que será uma obrigação minha com o blog e com a minha vida acadêmica. Por isso, farei o dever de casa direitinho, promessa.

Fora esses dias de trabalhos acadêmicos, tentarei fazer posts regulares para manter o fluxo do blog.
É isso meus amigos!

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Estupro Conjugal

"E quando eles voltam, sedentos 
Querem arrancar, violentos
Carícias plenas, obscenas
Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Despem-se pros maridos
Bravos guerreiros de Atenas" - Mulheres de Atenas, Chico Buarque






Nós mulheres crescemos ouvindo que "homem precisa fazer sexo todos os dias, sempre que desejar." Muitas de nós aprendemos a aceitar e até nos forçar a realizar os desejos de nossos companheiros, maridos ou namorados. Mas até onde é só uma transa sem muita vontade que acaba até sendo boazinha no fim das contas? Onde começa o limite da violência?
Eu falo com muita sinceridade, não gosto e não faço sexo sem vontade, por mais frustrado que possa deixar meu (minha) parceir@.  Nunca fui desrespeitada, nenhum d@s parceir@s que tive até hoje me forçou a fazer sexo sem vontade. Mas sei que existem mulheres que passam por essa violência todos os dias no Brasil e no mundo.
Acostumamos a acreditar que é obrigação da mulher satisfazer as vontades de seu marido, esquecendo de suas próprias vontades. Com isso, muitas mulheres sofrem caladas o estupro conjugal, que pode ocorrer com ou sem violência física, em muitos momentos a violência psicológica é o bastante ou até mais forte que a física ("se você não fizer procuro em outro lugar!" entre outras frases muito piores).
O que se precisa entender é que, quando um homem força sua companheira, esposa ou namorada a fazer sexo com ele, ele não está exigindo algo que é obrigação dela para com ele. Ele está violando-a e essa violação dói mais do que se fosse com um desconhecido. Nenhuma mulher merece passar por um trauma desses, ainda mais dentro da própria casa, feito por uma pessoa que deveria ser confiável, afinal dorme ao seu lado todas as noites.
De acordo com a minha consultora jurídica (a.k.a. minha irmã Lia Maria Manso Siqueira), para o código penal, o cônjuge pode sim ser julgado por estupro. Mas existe na lei civil o conceito de "débito conjugal", onde os cônjuges tem a obrigação de ceder seu corpo a satisfação sexual mútua. Ou seja, o débito conjugal não poderia ser visto como estupro, presumindo automaticamente o consentimento do ato sexual pelo cônjuge.
Também de acordo com o que a Lia me disse, a melhor doutrina e jurisprudência entendem pela inexistência do débito conjugal, e assim, pela possibilidade de estupro entre cônjuges desde que a relação não seja consentida.
Mas, o que eu quero mostrar ao falar de legislação é que, por mais que o débito conjugal sirva para ambos os cônjuges, sabemos que não é normal ver histórias onde o marido seja forçado a fazer sexo com sua esposa. A sociedade é machista, nossas leis são um reflexo de nossa visão de mundo. No texto Da Violência Sexual Intra-matrimônio: Entendendo o Débito Conjugal no Mundo Hodierno de Bárbara Martins Lopes, no Brasil, 54% dos estupros são cometidos pelo marido.
E estamos falando de uma pesquisa, sabemos que muitas mulheres mentem, outras não aceitam fazer parte dessas pesquisas, seja por vergonha ou por acreditar que é obrigação dela satisfazer seu companheiro.
E não, a culpa não é do débito conjugal, até por não ser usado mais pela maioria dos advogados. A violência existe muito além de um trecho do Código Civil, existe em nossas mentes, na educação que damos aos nossos filhos, no machismo que ainda perpetuamos com frases, atitudes e falta de atitudes no nosso dia a dia. De nada adiantaria modificar o Código Civil e acabar com o débito conjugal se ainda existir mulheres sofrendo por causa dessa violência caladas.

domingo, 20 de novembro de 2011

Post-conversa para a blogagem coletiva do Dia da Consciência Negra

Quando tivemos a ideia de escrever juntos nessa blogagem coletiva, proposta pelo Blogueiras Feministas, decidimos fazer um bate papo sobre nossa luta contra o racismo e como mostramos o negro em nossas histórias em quadrinho. Pautamos a conversa em noss@s protagonistas negr@s: Diana, profiler policial da graphic novel Valhalla (roteiro Sara Siqueira e desenho João Miranda); e os personagens da webcomic Sharpeville (criadas por João Miranda, como projeto de final do curso superior de Artes Visuais na UFJF).
Além disso, mantivemos como foco principal quatro tópicos importantes no debate sobre personagens/protagonistas negr@s e sua criação:

  1. porque d@ personagem ser negr@
  2.  presença de personagens negros nos quadrinhos (ou ausencia). porque é tão importante pensar nisso
  3. falar sobre negros é falar sobre a origem do negro? porque?
  4. como tornar um personagem negro mais natural dentro das tramas
Questões que necessitam ser abordadas por qualquer criador de roteiros, seja ele pros quadrinhos, pra telenovelas, filmes, livros ou peças de teatro. Principalmente se esse criador/roteirista tiver uma luta contra o preconceito. Falamos em muitos momentos de criação de estereótipos e de como esses estereótipos podem aumentar o preconceito, principalmente o racismo. Eu (Sara) já falei em uma outra blogagem coletiva sobre a empregada doméstica negra e sem vida pessoal. Acho que esse é um dos estereótipos que tentamos retirar da imagem do negr@ no Brasil.
Abaixo, estamos transcrevendo a conversa no msn, como foi nossa ideia inicial, com alguns cortes (pois ela está enooorme! Como sempre assuntos polêmicos e políticos duram muitas páginas de conversa entre a gente.)
Diana, protagonista do Valhalla - desenho por João Miranda

"Sara diz:
Eu pensei em explicar primeiro minha ideia de trabalhar uma mulher, negra e lésbica como
protagonista
Bem, quis trabalhar com um personagem que fosse um exemplo de superação dos preconceitos típicos da nossa sociedade. Uma mulher negra que tem um bom cargo em uma corporação tipicamente masculina, a polícia.
Não pensei muito em fazer uma personagem negra para o quadrinho como um ícone da cultura negra nos quadrinhos, pensei em fazê-la negra porque desejava falar de assuntos relacionados aos negros no Brasil
Não foi "vou fazer uma negra só por fazer", ela tem motivo de existir na trama e de ser negra
João diz:
É, até agora nas obras que eu efetivamente realizei, eu criei personagens negros por uma motivação específica dentro da trama .
Parece que ainda ao falarmos de negros, tem que ter uma razão atrelada a isso, ou um alarde sobre o fato. Sei que isso tá bem condicionado a nossa realidade, quer dizer: quantos
protagonistas de novela negras (negros) temos e que a trama não dialogasse diretamente com a questão do racismo?
Sara diz:
Acho legal também a relação dela com a cultura católica, sua tia, que foi quem a criou, é católica e negra. Queria tocar nesse assunto, pois são poucos negros que eu conheço hoje em dia que mantém uma religião Afro, a maioria são cristãos, católicos ou evangélicos.
Sempre me perguntei o motivo de existir tantos negros católicos, foi uma coisa forçada na época da escravidão, negros sempre foram obrigados a rezar pelo Deus dos europeus, e esconder sua fé, isso fez uma lavagem cerebral enorme nos negros, levando até a um preconceito muito grande com a própria cultura
João diz:
Verdade, a sociedade em si ainda não tem uma boa aceitação com as religiões afro
Sara diz:
Acho que em um quadrinho onde se fala sobre fé e religião, acabamos falando sobre a cultura e as religiões afro, não tem como passar despercebido por isso
João diz:
Tem aquele “ranço” de ignorância em acreditar nos ritos africanos como "feitiçaria", "macumba". Nos Estados Unidos o "voodoo" é bastante temido. você pode ver isso em quadrinhos, animações e filmes. quando na verdade é uma feitiçaria que pode ser usada tanto para o bem quanto para o mal. Depende de quem usa e não do rito em si
Sara diz:
Da mesma forma que ela não crê em religião nenhuma, a protagonista vive envolta com crimes religiosos. Ela tem uma tia religiosa, frequenta a missa (pra agradar a tia), lida com terreiros e centros espíritas.
Toda religião tem um lado bom e outro ruim, até mesmo o catolicismo é uma religião com duplicidade de sentimentos
João diz:
Com certeza Sara, acima de tudo falar sobre várias religiões é desmistificar uma série de coisas.
Sara diz:
Não existe só bondade no coração do ser humano e os deuses das religiões são criados e pensados por seres humanos. Em momento nenhum falarei só de coisas ruins ou só de coisas boas de nenhuma religião
João diz:
Ao buscar essa diversidade sexual e religiosa dentro da trama e tratar com naturalidade, acho que você em “Valhalla” cria alguns novos e interessantes paradigmas.
Sara diz:
Até mesmo o peso católico da trama é bem equilibrado, a tia da protagonista é o peso bom e os crimes são o peso ruim.
João diz:
A personagem principal é negra e lésbica, resolve crimes rituais em várias cidades do Brasil.
Vê o quanto você fala de sociedade e do país só na premissa?
Sara diz:
 Verdade, é muito da cultura do Brasil em um quadrinho só, dá até medo de não dar certo.
 A lesbiandade dela, ao mesmo tempo que se encaixa perfeitamente com a trama, também       tem motivo de existir. Ela é vista como masculina por seus colegas de trabalho, sua tia acha que ela poderá sofrer se for assim, e no final tudo está entrelaçado, sua cor, seu gênero e sua sexualidade, mas mostrar o preconceito é sempre bom e necessário.
 Então ela não é mulher, negra ou lésbica pra falarmos sobre o preconceito, ela é tudo isso porque a trama pede e podemos junto fazer uma conscientização contra o racismo, machismo e homofobia.
João diz:
Sim, mas acima de tudo o foco tem que ser uma história eficiente, não basta só a conscientização como fio principal. Aliás, essa tem que ser apenas o fundo da trama (nesse caso) e não a superfície.
Sara diz:
Sim, porque conscientização em uma história sem uma trama interessante não funciona, se a trama não levar ninguém a ler a história, de que adianta mostrar um trabalho de luta contra machismo, homofobia e racismo?
João diz:
Em “Sharpeville” eu tive esse temor e busquei equilibrar as coisas, pois o principal era a conscientização. Mas tinha de ter um forte elemento humano nela.
Sara diz:
E a protagonista ser negra, mulher e lésbica tenta também mostrar que um homem, um@ heterossexual ou um@ branc@ pode se identificar com uma pessoa tão "diferente" dele, afinal, o caráter e sua inteligência é o que faz dela tão admirável a ponto de rolar essa identificação sim, mas a personagem mulher de “Sharpeville” é muito cativante, pelo menos pra mim. Então, me senti envolvida na trama graças a isso.
João diz:
Ela é acima de tudo uma mulher muito forte. Forte por tudo que passou e que passa.
Sara diz:
É aí que eu me identifico com ela. Venho de uma família onde todas as mulheres, mesmo as que não são feministas são incrivelmente fortes.
João diz:
É o ideal de pessoa, não apenas mulher, que eu tenho em mente. Ela tem múltiplas facetas, múltiplas possibilidades e um desejo enorme de realizar o que almeja.
Sara diz:
Até porque é esse desejo que nos move. Minha irmã disse ontem que não consegue imaginar uma pessoa q viva sem fé, eu não consigo imaginar uma pessoa que viva sem desejo.
Sara diz:
O que me dei conta é que essa fé da minha irmã se traduz como o desejo que eu imagino ser o motor que gira a vida foi esse desejo que coloquei na Diana, porque achava que ela precisava ter muita vontade de viver, muito desejo em seguir a diante, mover e modificar o mundo em que ela vive.
João diz:
No segundo segmento de “Sharpeville”, a vemos como uma mulher trabalhadora, ativista, de opinião bem formada (e até radical), até encontrarmos uma mulher suave, compreensiva(ainda que bastante orgulhosa) e atenciosa.
João diz:
É um segmento muito curto para as possibilidades que eu gostaria de dar para ela, mas sinto que é a personagem com mais presença, que mais defina o que é a trama e a luta contra o racismo e machismo.
Sara diz:
Sim, ela é um ícone de dois movimentos muito comuns naquele momento na África do Sul, um deles muito visível no mundo todo (o feminismo) naquele momento.
João diz:
Eu acho que desejo é fé. É algo que você acredita com tanta força e que busca com tanta vontade que você crê que uma hora será realidade
Sara diz:
Eu acho que fé é uma definição muito religiosa. E eu ultimamente tenho questionado a religião e a fé da mesma forma que Diana as questiona o tempo todo.
Sara diz:
Acho que a Diana sou eu, em muitos momentos me pareço tanto com ela, e ela comigo.
Isso é outra coisa curiosa não sou lésbica, nem negra. Pelo menos não vivo sob o preconceito que as lésbicas vivem (até por me relacionar nesse momento com um homem) e não tenho cor, então sofro menos com o racismo. Mas sei e sinto muito bem o que as mulheres negras ou lésbicas sentem.
João diz:
Mas você é negra sim, tem sangue negro pulsando em seu DNA.
A questão é: nesse Brasil, quem NÃO é negro?
Sara diz:
Ter sangue negro é quase unanime no Brasil e é nessa hora que questionamos se as negras se sentem parte do movimento feminista, mas nem todo mundo é negr@.
Trecho do quadrinho Sharpeville - desenho de João Miranda
(tivemos um intervalo de algumas horas, retomamos o papo de noite, até com as ideias mais e melhores elaboradas...)

João diz:
Mas ainda não peguei essa não identificação, e a questão do movimento feminista Sara.
Sara diz:
O que acontece: sempre ouvimos q o feminismo é um movimento burguês e branc@. Não sei se eu concordo, mas em muitos momentos vejo negras dizendo que sentem falta de lutas pelos direitos das mulheres negras. Como vejo também muitas lésbicas e bissexuais pedindo mais luta pelos direitos LGBT dentro do movimento feminista.
Eu me sinto contemplada, mas muitas não se sentem.
Tem um post ótimo da Marília falando disso, e outro da Luana.
João diz:
Eu vejo um pouco esse paralelo (com os movimentos femininos serem burgueses e branc@s) com o porquê os movimentos negros não ganharam engodo popular. Eu li um artigo que falava mais ou menos sobre isso. Como sempre, preciso estudar mais sobre o assunto (nunca sinto que sei o suficiente e nesse caso há pessoas que estão mais versadas do que eu), mas o artigo (que falava sobre consciência sobre a cor), falava que o movimento negro teve muito do seu berço em grupos de cidadãos mais favorecidos financeiramente, e de alguma forma se manteve nessa esfera, pois os negros com menos renda ( e graças a uma série de outros fatores) se preocupavam muito mais em como cobrir o básico de vida.
Já que o estado nada fazia, como ainda pouco faz.
Ou seja, uma luta "invalidou" a outra. Isso se soma a esse racismo velado que temos em nosso país. Escondido sobre o manto da liberdade e mistura racial
Sara diz:
Pois é.
Sabe, em muitos momentos, vemos @s negr@s dentro de vários movimentos, algumas vezes luta nem é por identificação direta é só uma luta contra o preconceito, mas é difícil ver quem abrace mesmo a luta contra o racismo.
João diz:
As lutas tem que se somar, pois todas são em nome de um país mais livre e pacífico para todos. É como lutar contra a um fantasma Sara, por mais que ele te “faça mal”, muitos acham que ele não existe, ou se existe, não pode ser tocado. No meu trabalho (conclusão de curso, bacharelado) eu menciono uma pesquisa do jornal Folha de São Paulo q foi compilada no livro "Racismo Cordial" 80% dos entrevistaram admitiram existir racismo no Brasil, mas só 2% se admitiram como racistas.
Sara diz:
Sim, nós somos loucos, que enxergam preconceito em tudo. “Piadas são só piadas”. Piadas de negros, de homossexuais, de mulheres são “só piadas”, “não é preconceito”.
Como se piadas não fossem imagem da sociedade em que vivemos
João diz:
Eu espero pelo dia que piadas serão só piadas e uma lembrança de um passado bárbaro e intolerante. O problema é que o momento não é esse.
Sara diz:
Olha, eu me sinto ofendida toda vez que ouço uma piada, mas me sinto mais ofendida ainda quando me chamam de psicótica, exagerada ou sem senso de humor porque não entendo que são só piadas, não tem preconceito ali.
Será mesmo que não tem?
João diz:
O humor é resultado de construção social
Sara diz:
Pois é.
Enquanto for engraçado chamar negro de nomes ofensivos, falar que todo gay é afeminado e que mulher é temperamental e tem TPM, pra mim é prova de preconceito, e acho que há a possibilidade de se ser engraçado sem ofender alguém ou uma classe de pessoas.
João diz:
 Acima de tudo, também é um retrato de uma época. Concordo contigo, mas quero pensar em uma nova atitude para o futuro. É como a criação de personagens negros Sara, exatamente a mesma coisa. Até certo ponto é a construção visual e mental de uma época, porém, estamos em um momento que essas construções caem, o visual pode se manter, mas como representação de uma outra coisa. Diferente disso, se torna uma péssima e incorreta caricatura de um sujeito negro.
Sara diz:
Sim, tudo bem: acredito que o negro deve ser representado sempre com normalidade, tirando o ranço do preconceito da cota no quadrinho.
Ele é parte, como qualquer outro personagem e pode ser rico, pobre, bom ou ruim. O problema é que enquanto ainda existir preconceito, retratar negr@ empregad@ e pobre é comum, e isso só traz continuidade ao racismo.
João diz:
Sim Sim. Ao mesmo tempo que é uma infeliz construção social.
Sara diz:
Por isso devemos desconstruir isso,mas com naturalidade.
Sem forçar a barra "olha aqui, esse personagem é negro pra provar que nem todo negro é empregado", não precisamos explicar só colocar com naturalidade lá.
A Diana ser mulher, lésbica e negra tem motivos muito maiores que mostrar essa normalidade. Já falei, ela encaixa com a trama como uma luva, e isso traz a normalidade de uma mulher negra e lésbica como protagonista da história.
João diz:
A grande evolução nisso vai ser o fato de o personagem existir sem que haja menção a origem ou a cor dele.
Sara diz:
Entendi
João diz:
Mas como fazer isso em uma sociedade cujo "normal" é ter a pele branca?
Sara diz:
Verdade
João diz:
Essa carga aparece de uma forma ou de outra, o negro no Brasil tem um histórico rico e que é extremamente subaproveitado. Parece que falar de negro no país é ficar estacionado no Brasil-colônia, enquanto tivemos tantos movimentos políticos e tantas lutas que não chegaram nos holofotes da imprensa.
   Esse passado tem que ser resgatado
Sara diz:
E também é como se falar do negro fosse apenas falar da luta contra o racismo como se o negro não fizesse mais nada na vida além de militar. Sabe? Como se o negro fosse só isso, não tivesse família, vida social, emprego...
João diz:
Mas como fazer o contrário sara?
   Viver é militar
Sara diz:
Sim. Mas também precisa se entender que o negro não existe só no momento da militância
João diz:
Cada ato é um ato contra o sistema que confina o sujeito à suas próprias regras
Sara diz:
Ou ele é um estudante politizado, ou é um empregado de uma casa de ricos, de resto, não existem negros, entende?
A gente vê em novelas que o negro geralmente não tem vida social, família, amigos...
João diz:
Dwayne Mcduffie falava que a maior dificuldade que ele tinha de escrever personagens negros para Marvel e para DC Comics é que os editores não esperavam que ele criasse pessoas e sim um ícone para uma etnia inteira
Sara diz:
Ou é militante ou é empregado.
Aí trazem o personagem do Lázaro Ramos, que é uma caricatura do negro sexualizado.
João diz:
Como representar um povo todo através de um só ser humano, que é plural e confuso o suficiente só sendo ele?
Sara diz:
Que é um cara que cresceu com seu próprio esforço, mas é alienado de tudo.
Não existe militância + vida, ou é um ou é outro.
Outro problema: querer dar ícones pra uma etnia como se todos fossem iguais, formatados, “então negros são assim” e cria-se um tipo pra denominar toda e qualquer pessoa da cor de pele negra como se cria um tipo pra denominar toda mulher ou todo homossexual.
A visão romantizada de que toda transexual é linda, tem corpo nos padrões de beleza midiáticos é a mesma coisa do ícone negro ou que todo homossexual do sexo masculino é afeminado e que toda mulher é frágil.
João diz:
Sim, mas acima de tudo aí estamos falando de um negro que vive com as questões de ser negro naquela sociedade, escrevendo um personagem desse porte, nunca haverá de ser um estereótipo.
Sara diz:
Mas aí vem com naturalidade
João diz:
O problema é que um personagem "diferente" sempre gera esse pensamento, esse comportamento de ícone.
Sara diz:
E aí que vem a crítica: fazer com naturalidade uma pessoa, não é criar sempre o mesmo personagem. Somos plurais
João diz:
É como um personagem homossexual que se relaciona abertamente. é um indivíduo que representa apenas a si próprio. Porém, como é o único homossexual da trama (o que é um recurso muito usado atualmente nas telenovelas) as pessoas interpretam como se ele representasse todo universo homossexual daquela trama e isso gera ecos na sociedade, mitos e aí julgamentos sociais
Sara diz:
Sim, aí vemos aquele personagem do André Gonçalves, que foi o cúmulo do preconceito com homossexuais. Uma repetição da estereótipos e todo mundo adorando, “tão legal tão real”.
Calma aí, todo homossexual é assim?
João diz:
Mas aí é que tá. Eu fico pensando bastante nisso, um personagem é uma representação do que?
Não tem como definir, depende muito do conceito da obra pois um personagem é uma ferramenta para a trama fluir. As vezes ele cria uma vida própria tão intensa que se torna maior do que a trama
Sara diz:
verdade
João diz:
Mas acima de tudo, um personagem pode ser a representação ou não de algo mais abstrato.
De uma classe social ou de minorias
Sara diz:
Mas personagens icônicos de grupos tratados com preconceito são geralmente muito rasos.
Veja o caso da Celeste (Dira Paes), muito rasa.
João diz:
Defina rasa, como assim?
Sara diz:
Acho que ela em si não é importante, a vida dela gira em torno do marido, da filha e da amiga.
Ela mesma não é tão importante
João diz:
Mas aí é que está, será que ela não é a ferramenta para mostrar essa realidade e quão sem sentido ela é?
Sara diz:
Não sei
João diz:
Ela representa um tipo de mulher que sofreu uma criação e que aceita esse tipo de situação, isso é representação de grupo
Sara diz:
Me sinto incomodada com mulheres assim, tão passivas, que não dão a volta por cima por si, que precisam de um empurrãozão, quase ser jogada a força pra sair dessa zona de (des)conforto."
Link pra terceira parte da webcomic Sharpeville - desenho de João Miranda

A partir daí chegamos em uma conversa menos relacionada ao negro, como sempre nossas conversas não acabam, mudam de assunto. Esse bate papo é uma forma de mostrar como lidamos com a situação do negro em tramas e como a nossa luta envolve a nossa arte. Não existe artista militante que não coloque sua militância em suas obras.
*Mais informações sobre Sharpeville, acesse o blog da webcomic.
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