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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Cadeirantes sofrem!

Hoje, o destino me fez passar por duas vezes por um ônibus adaptado com um cadeirante (o mesmo cadeirante em ambos os momentos). No primeiro momento, aconteceu apenas o normal, o cadeirante subiu com o auxílio de um acompanhante no ônibus e seguiu o seu caminho após eu descer do ônibus. Mas, na segunda vez, essa noite, algo diferente aconteceu.
Após o cadeirante subir no ônibus, a porta adaptada travou. Simplesmente deu um problema mecânico e não funcionava mais. O cadeirante já sofre com a espera, afinal são poucos ônibus adaptados na cidade, sofre também com a necessidade de ajuda, em muitos momentos, ele não consegue ir e vir sozinho, precisa de um acompanhante. Além disso, o cadeirante também precisa passar pelo desconforto de ter ônibus adaptados com problemas mecânicos, facilmente resolvidos se houvesse manutenção periódica.
Eu agora entendi o motivo de não saber de nenhum cadeirante que utilize os ônibus em Juiz de Fora, se você tem a possibilidade de andar de carro, por qual motivo você passaria raiva usando um ônibus. O problema é que existem pessoas como esse cadeirante de hoje que precisam utilizar os ônibus adaptados de Juiz de Fora e passam por esse desconforto.
O que me surpreendeu foi que quase todo mundo no ônibus ficou revoltado com o acontecido, muitos pelo atraso que o ônibus teve graças a esse problema da porta, mas alguns estavam revoltados por causa da falta de respeito com frequentadores dos ônibus que são cadeirantes e precisam da porta adaptada. Nós pagamos caro pela passagem de ônibus e a empresa não faz manutenção nos carros, não cuida do bem estar dos passageiros.
Não sei como terminar esse texto, só posso dizer que me senti revoltada em ver que até mesmo os direitos que se dizem respeitados, não são levados tão a sério quanto parece.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Não é só Fervo

Hoje é dia do Orgulho LGBT, um momento onde pessoas saem nas ruas para mostrar a todos, batendo no peito, que não há motivos para ter vergonha de ser diferente em relação a sua orientação sexual.
Sempre fui muito desligada de paradas do Orgulho LGBT, sei que aqui, em Juiz de Fora, ela acontece junto ao Miss Brasil Gay, durante o Rainbow Fest e, por muito tempo, era só isso que sabia. Moro na cidade desde 2002 e só fui 2 vezes na Parada, sendo que, numa dessas vezes, fui olhar a distância. Na segunda ida, fiquei pouco tempo, a Parada em muitos momentos se transforma em Fervo, esquecem a Real mensagem que deve ser passada: a luta contra o preconceito.
Ano passado eu finalmente conheci os debates durante a semana de Rainbow Fest, sempre muito interessantes e educativos. Alguns falando sobre educação e o trabalho da luta contra o preconceito dentro de sala de aula, outros sobre mídia e política LGBT. O que me frustra durante todo o tempo do festival é que vemos milhares de pessoas na Parada, mas as salas de debates ficam vazias, com pouquíssimas pessoas, que estão realmente interessadas na luta contra o preconceito.
Cartaz do Juiz de Fora Rainbow Fest 2010
Temos o costume de acreditar que, se não passamos por bullying ou não somos expulsos de casa por causa da nossa orientação sexual, não há motivos para lutar, está tudo bem. Mas não é verdade, não é porque não passamos por preconceito que ele não existe e tudo é fervo e alegria. Toda semana escutamos alguma notícia ruim relacionada com intolerância contra pessoas da comunidade LGBT. Essa violência pode sim atingir qualquer um de nós, não apenas os próprios membros da comunidade ou familiares e/ou amigos desses membros.  Quant@s menin@s você não conhece que são heterossexuais e já foram ofendid@s com xingamentos homofóbicos? Somos tod@s vítimas desse problema, por isso que não podemos apenas aproveitar o fervo e as baladinhas LGBT, famosas por suas ótimas músicas.
Crédito - Agência Estado - Portal r7
De nada vale eu e você livres de preconceito, se algum Pit Boy pode machucar ou bater em um amigo, em um familiar ou em nós mesmos. Tudo pelo motivo torpe de não aceitar a orientação sexual presumida da vítima. De nada vale eu ou você considerarmos um casal homossexual como casad@s e passíveis de constituir uma família, se a justiça não dá direitos iguais a casais hetero e homoafetivos. É por isso tudo que precisamos lutar de verdade contra a homofobia e pelos direitos iguais a todos, independente da orientação sexual. Se você apoia a luta LGBT, milite de verdade, indo em debates e a mostrando que você tá na causa muito além das festas!

terça-feira, 26 de abril de 2011

Dalva, uma mulher sem vida

Eu não assisti a novela O Clone quando ela passou pela primeira vez, na época, dormia muito cedo por causa dos estudos. Agora, tenho assistido alguns episódios da novela, quando vi a blogagem coletiva do Blogueiras Feministas, pensei em falar sobre a Dalva (interpretada por Neuza Borges), a governanta de Leonidas Ferraz, do núcleo rico e brasileiro da novela.
Dalva criou Diogo e Lucas, na primeira fase da novela, cuidando de suas roupas, seu relacionamento com o pai, sem contar que também cuida de tudo relacionado a casa da família Ferraz. Na segunda fase da novela, ela cuida de Mel, filha de Lucas. Seus cuidados com as crianças da família nos leva a uma época bem antiga, antes da abolição da escravatura, onde as crianças tinham amas de leite e eram cuidadas por negras, que eram escravas de casa. Quando a escravidão foi abolida, muitas mulheres negras, sem oportunidade de outros empregos, continuaram a trabalhar com trabalho doméstico, cuidando de casa, crianças, lavando roupas pra fora. Isso explica porque tantas trabalhadoras domésticas são negras ou descendentes de negros.
Mas eu quero falar sobre outra coisa, sobre algo muito normal nas novelas da Globo, a sensação de que a trabalhadora doméstica só existe para servir seus patrões. As domésticas das novelas, normalmente só aparecem dentro da casa onde trabalha, cuidando da família pra quem trabalha, sem vida social, relacionamentos amorosos, quando há relacionamentos amorosos, são mostrados de forma jocosa, para ser motivo de risos.
Dalva não sai daquela casa, não tem irmãos, amigos, conhecidos ou até mesmo relacionamentos amrosos. Sua grande preocupação, já que não tem um drama pessoal, são os problemas de seus patrões: O casamento fracassado de Lucas, por exemplo. Sem vida pessoal, Dalva é esquecida, ela é apenas um acessório na casa da família Ferraz. Isso não seria um espelho da nossa sociedade? Onde nós também esquecemos das trabalhadoras domésticas, seus dramas familiares, sua vida pessoal, sua família. Acreditamos que ela não precisa de nada mais, ignorando-as como seres humanos.
Não sabemos quem são essas mulheres que  convivem com nossos familiares, como é sua vida, se estudam, se desejam algo diferente em seu futuro. E não é só isso, as vezes vemos como essas trabalhadoras são tratadas de forma rude, grosseira, sem nenhuma educação. Se vemos essas mulheres como acessórios de nossas casas, não nos sentimos culpadas em tratá-las dessa forma.
Aí, depois de darmos toda essa volta, chegamos no primeiro assunto do post, resquícios da escravidão no nosso país. Será que as domésticas ainda são vistas como as escravas da Casa Grande? Por isso não as humanizamos?

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quinta-feira, 14 de abril de 2011

O Corpo Feminino

Nu Feminino de Robert Mapplethorpe, 1987

*Esse texto eu fiz para um curso de extensão de consciência corporal (2009 e 2010) e decidi publicar aqui*

Durante o Feudalismo, a mulher era apenas parte da propriedade masculina, até seu casamento era propriedade de seu pai, que em seu casamento a vendia a um homem que se transformaria em seu marido. É claro que haviam algumas mulheres que viviam com certos privilégios, mas mesmo essas eram propriedade dos homens. Pensemos no corpo feminino como um móvel da casa do camponês ou do nobre, quanto mais rico o dono mais bem cuidada ela era. Nessa época a Igreja Católica, considerava a mulher como a tentação, muito bem mostrado no livro O Nome da Rosa1.
O Feudalismo começa a entrar em decadência por volta do século XV ou XVI, nessa época o Renascimento está bem estruturado na Europa e começam as navegações pelos demais continentes. Nesse momento entram em cena outros corpos femininos, corpos de indígenas americanas e africanas, que sofriam violência sexual de navegadores europeus, se uma européia já era vista como objeto, mesmo sendo batizada e visitando a igreja, imagine como seriam vistas mulheres “sem alma”. Nessa mesma época, a Europa passava por uma grande mudança, o antropocentrismo começava a tomar conta, Deus já não era tão importante quanto o homem. Assim, começam pesquisas a procura de ciências novas e para retomar as antigas ciências gregas. No início da Reforma Protestante algumas mulheres começam a se fazer notar em cortes européias. A Rainha Virgem foi uma das grandes mulheres dessa época: Elizabeth foi a primeira herdeira mulher do trono inglês que não casou-se, morrendo sem herdeiro.
Também entre os séculos XV e XVI, começou o Tribunal de Ofício, a Inquisição, onde muitos cientistas e mulheres foram queimados acusados de bruxaria. Uma dessas mulheres, foi Joana d'Arc que lutou ao lado dos soldados de França contra os ingleses, queimada na fogueira por bruxaria, sendo vista como tal até o final do século XIX. Seu corpo foi queimado em praça pública pois Joana afirmava ouvir vozes de santos, que o Tribunal acreditava serem vozes demoníacas. Após dar a vitória a França e ser esquecida por séculos, ou apenas lembrada como bruxa, no século XX foi beatificada, se transformando na santa padroeira da França.
Com isso chegamos a Idade Moderna, ao início da Revolução Industrial, onde mulheres, homens e crianças de classe baixa eram vistos como simples força de trabalho, com vida quase escrava. Nesse momento a diferença entre homens e mulheres era exatamente o desrespeito sofrido pelas mulheres em casa e nas fábricas, sofrendo abusos, espancamentos, isso sem contar o salário mais baixo. Apesar de também trabalhar, a mulher ainda era propriedade do homem, então nesse momento o corpo feminino se transformou em propriedade de seu marido ou pai e de qualquer homem que estivesse acima dela no seu trabalho operário, sendo submetida a regras rigorosas e a abusos de seus chefes e colegas de trabalho. Contudo, as mulheres eram em maior quantidade no trabalho das fábricas e nesse momento a mulher era vista como um homem imperfeito, e por sua imperfeição era inferior ao homem, sem direitos de cidadão, sem muita liberdade. Nessa época a mulher tinha de ser desprovida de qualquer traço de feminilidade e sedução, mantendo a sexualidade feminina como um tabú. Para ser uma mulher correta precisaria ser mãe e esposa, sem qualquer manifestação de desejo sexual. Com isso muitas mulheres passaram a utilizar seu corpo para realizar os desejos dos maridos que tinham esposas corretas como mandava o figurino. De certa forma, se não existisse a esposa correta não existiria a prostituta e vice e versa.
No século XIX, algumas mulheres começaram a se reunir para reivindicar direitos que os homens tinham mas não eram dados as mulheres. De início foi a busca por votos, acreditava-se que esse direito abriria portas a outros direitos, mas após conseguir o direito ao voto, as lutas começaram a esfriar e diminuiram aos poucos. Enquanto isso o corpo feminino se manteve como propriedade dos homens.
Foi no século XX que as revoluções voltaram a tomar mais força, foi na década de 30 e 40 que os países socialistas e capitalistas começaram a absorver as reivindicações femininas, dando as mulheres mais um pouco de individualidade, durante a Segunda Guerra as mulheres voltaram a ter força e voz trabalhando fora de casa, para manter a economia mundial funcionando enquanto seus maridos lutavam por seus países. Com o término da guerra, tudo voltou a ser como era antes, mulheres como donas de casa, propriedades de seus maridos ou pais. Com a década de 60 veio a luta pela liberdade sexual, começando assim a luta pela liberdade e autoridade da mulher sobre o seu corpo. O movimento Hippie que reivindicava paz e liberdade de expressão ajudou muito nas lutas feministas, essa revolução é considerada como a segunda revolução feminista da história do mundo ocidental. A terceira revolução feminista foi na década de 90, onde aumentaram as conquistas. Aqui no Brasil, as mulheres passaram a poder acusar seus maridos de estupro: o que era uma obrigação da mulher para seu marido virou uma decisão de ambos, escolha do casal e não mais do homem. Também foi tirado de nosso código civil o direito do marido de devolver a esposa se ela não tiver casado virgem, ou seja, a mulher deixou de ser aos olhos da lei um objeto do homem, tendo direito de escolher o que fazer com seu próprio corpo.
O direito ao voto, ao divórcio, liberdade sobre suas decisões, direito a estudar, de trabalhar, o salário quase igual ao dos homens, uso de contraceptivos e em alguns países a liberdade de decidir interromper a gravidez. Essas conquistas deram uma grande liberdade da mulher sobre o seu próprio corpo e criou uma outra escravidão: a obrigação de se libertar de tabús.
As mais novas gerações femininas podem usufruir de seu próprio corpo, podem se dar o direito de sentir prazer, de viver como desejam, mas junto dessa liberdade corporal veio uma prisão, essa obrigação de ser livre, ter pensamentos avançados e fazer o que todos fazem. Muitas meninas e mulheres acabam se sentindo pressionadas a fazer com seu corpo o que os outros dizem certo. Viramos escravas da liberdade do nosso corpo, nos transformamos em mulheres que não podem desejar filhos, casamento ou viver uma vida sem excessos, afinal, agora podemos fazer tudo que não podíamos.
Esse é o meu questionamento: o corpo feminino realmente está liberado, ou a liberdade criada pelas mulheres saiu de controle e se transformou novamente em prisão, sem direito a escolhas diferentes das escolhas vistas como certas pelas demais mulheres? Fazer valer as conquistas que ganhamos em anos de luta não é se forçar a agir da forma que não queremos. As mulheres ganharam o direito de escolher o que fazer da sua vida, não obrigadas a mudar de prisão. As mulheres continuam presas, só mudaram as algemas.

Bibliografia:
1 ECO, Umberto 1980, Il nome della rosa tradução por Maria Celeste Pinto, Círculo de Leitores

Mulher e arte - Guerrilla Girls


A arte, como todas as outras manifestações humanas de longas datas, é um território masculino e misogino.
Quando comecei a estudar arte contemporanea, conheci um movimento de guerrilha feminista que reinvindicava a entrada das mulheres em exposições, museus e salões de artes: O Gerrilla Girls. Nós, eu e o movimento, nascemos no mesmo ano em 1985.
Com máscaras de macacos e nomes de mulheres artistas que já morreram, as performers e artistas desse movimento mostram com imagens humorísticas e chocantes o machismo, o racismo e a corrupção. Elas mostram de forma escancarada tudo que não vemos por estar nas entrelinhas, distorcendo os fatos para que o espectador possa ver de uma nova forma e, quem sabe, mudar de opinião.
A primeira imagem que vi dessas mulheres foi um outdoor que perguntava: "Nós precisamos ficar peladas para aparecer no Met. Museum?", denunciando uma porcentagem assustadora - onde 3% dos artistas no Museu Metropolitan de NY são mulheres e 83% dos nús são femininos!
O trabalho dessas mulheres ainda não terminou, na sua visita em dezembro de 2010 ao Brasil, Frida Kahlo e Käthe Kollwitz contam que o feminismo tem mudado a vida das mulheres em todo mundo, mas ainda é a passos vagarosos na maioria dos lugares.
Confesso que o trabalho dessas mulheres me transformou, finalmente entendi o que era ativismo no meio artístico, e quis fazer parte desse ativismo, lutar pelo que acredito!

Se estiverem interessados em mais informações, entrem no site: www.guerillagirls.com
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