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terça-feira, 10 de maio de 2011

Corpo perfeito?

Esse domingo ao entrar em uma loja em um shopping de Juiz de Fora, passei por um momento desconfortável:
Enquanto minha mãe era atendida por uma funcionária da loja, eu olhava uma blusa de frio, ao perguntar a outra funcionária quais os tamanhos daquela blusa ela teria, recebi um sorrisinho cínico e logo depois ela guardou a blusa M colocando a de tamanho G na minha frente e se retirando. Aquilo me deixou incomodada, minha vontade era de sair da loja naquele exato momento, minha irmã não deixou, fez queixa a funcionária que atendia a ela e minha mãe, mas no final, acabamos nos recusando a comprar na loja. Sabe o mais curioso? Eu tinha aproximadamente o mesmo peso que essa moça que fez esse deboche comigo.
Mesmo que ela fosse magra, o que faz ela acreditar que pode agir assim com uma pessoa? Porque não ter o peso que a mídia acredita ser o certo me faz indigna de usar qualquer tipo de roupa? Sempre me pergunto isso, essa vendedora só fez o que lojas grandes já fazem em sua grande maioria, escolher quais roupas uma pessoa que veste mais que o tamanho 42 deve usar.
Tit Profile de Robert Mapplethorpe
Virou comum você procurar roupas em lojas daquelas grandes e só encontrar roupas na área feminina comum até o tamanho 42, quando você procura tamanhos maiores, algum vendedor te avisa que não tem mas que tem uma área "plus" onde você encontra roupas com o seu tamanho. Essa área "plus" geralmente não tem as roupas da moda, tem roupas mais largas, as vezes até feias. Porque uma mulher considerada gorda não pode usar roupas que mulheres consideradas magras podem? É como se mulheres ditas gordas só pudessem usar roupas que escondem seu corpo, como se fosse uma vergonha ser gorda.
A gente precisa primeiro entender que ser gorda não é uma coisa ruim, um xingamento, é apenas uma característica de alguém. se você é gorda ou magra, você não é superior ou inferior a ninguém, nós, mulheres, precisamos entender isso e conviver bem com o nosso corpo. Será que o mais importante não seria a saúde, os cuidados com o corpo, uma alimentação saudável e se você for gorda ou magra, cuidando da saúde, não faz diferença?!
Aliás, o que é ser gorda, magra, ter o corpo perfeito? Ser como manda a mídia é ter um corpo perfeito? Nessas horas fico querendo saber sobre o gosto pessoal, subjetividade de uma pessoa, será que todo homem tem preferência pelo padrão de beleza que dita a mídia? Será que uma mulher ou um cara vai escolher seu ou sua parceir@ por causa do peso ou porque tem o corpo igual ao da Juliana Paes ou de qualquer mulher vista como bela pela mídia? Se alguém pensa assim, você, que dá valor ao caráter e a personalidade muito mais que a beleza, vai se relacionar com essa pessoa? Alguém que dá mais valor ao peso e ao que é considerado bonito nos padrões de beleza clichê não seria superficial demais para nos preocuparmos? Se não desejamos uma pessoa que não seja superficial então não devemos dar valor a pessoas assim.

Eu continuo sem entender o desespero que muitas mulheres têm para ter um peso, um corpo e um tamanho de roupa ideal de acordo com a mídia. Enquanto existir essa necessidade milhares de mulheres se sentirão mal ao entrar em uma loja.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Menstruação e achismos de alguém que quer quebrar (seus próprios) tabus!

Pra participar da blogagem coletiva da 2@ Vermelha, decidi repensar tabus sobre meu corpo, menstruação e tudo que ela significa pra mim e para outras mulheres.
Sempre fui uma mulher que sofreu com menstruação, cólicas horríveis, enjôos, dores de cabeça, stress e um fluxo muito forte - estou sentindo tudo enquanto falo, afinal hoje é o meu primeiro dia de menstruação - e sempre tive uma raiva danada de ficar de cama no primeiro dia de menstruação. Mas nunca entendi o que faz tanta mulher sentir nojo da menstruação. Eu mesma já tive nojo de menstruar, já vi o sangue da minha menstruação como algo muito sujo. Hoje, tento quebrar esse tabu de sujeira, afinal, quando me machuco e sangro não tenho nojo, qual a diferença de um sangue pra outro?
Outra coisa que tenho tentado entender é porque toda mulher passa um período da vida torcendo para a menarca descer e, depois que ela desce, passa amaldiçoar todo mês a menstruação? Muitas delas nem sofrem com cólicas, mas vivem a reclamar de passar por isso todo mês. Se o homem menstruasse, com certeza, seríamos ensinadas que menstruação é algo bom, mas como somos nós, mulheres, quem menstruamos ouvimos desde a infância que menstruação é tortura, sem nem entender o porque. Eu mesma preciso parar de reclamar desses dias e sentir o que está acontecendo com o meu corpo: ele tá passando por uma limpeza, tá renovando um ciclo. Eu passo tanto tempo reclamando das dores que esqueço da melhor parte da menstruação, minha libido aumenta e eu fico mais sensível, tudo me faz rir, chorar e amar os outros! Eu ontem mesmo, me peguei chorando de tanto rir com uma piada boba, isso não é maravilhoso?! Sentidos aguçados, daí vem minha irritação e também é daí que vem minha felicidade excessiva.
Falando em sentimentos e aumento da libido, porque tem mulheres que não transam quando estão menstruadas? Eu adoro transar quando eu to menstruada! Estou mais sensível, despreocupada com gravidez(assumo sou uma pessoa sempre grilada, usando pílula e camisinha eu sempre acho que podem falhar, e fico sempre nervosa com a possibilidade de engravidar antes de terminar a pós, o mestrado e o doutorado!), não tem porque não transar. Mas tem mulheres que não aceitam transar, por nojo do próprio corpo ou por medo do parceiro sentir nojo. Mas uma vez me pergunto, se fossem os homens, existiria todo esse nojo, essa sensação de impureza no nosso corpo? É algo a se pensar.

Eu espero me livrar de muitos tabus até a próxima 2@ Vermelha e poder contar a vocês como é viver sem preconceitos com o meu próprio corpo.

Postagem no Blogueiras Feministas, site da Campanha e links de outras Blogueiras Feministas:

sábado, 30 de abril de 2011

A mulher e a sociedade

Trecho do meu trabalho de conclusão do curso de extensão em consciência corporal.

Lydia Cheng, 1985
© Robert Mapplethorpe
No mundo de hoje, as pessoas vêem seu próprio corpo como um pertence nosso, que se nos deixa insatisfeitos, podemos consertar, não notamos que esse corpo é parte de nós, sente nossos estresses e a forma que lidamos com ele. Acabamos vendo o nosso corpo como um objeto, um utilitário como uma roupa ou um carro, só que não notamos que se nosso corpo estragar não podemos trocar por outro mais novo. Apesar de todas as cirurgias plásticas ou por outros motivos, ainda não conseguimos trocar de corpo, devemos cuidar para que este não se “estrague”. Outro problema que o nosso corpo sofre é a não utilização dele, tudo que vem do corpo é considerado ruim. Muitas religiões acreditam que sentimentos corpóreos são ruins, pecaminosos e errados, os intelectuais, em sua grande maioria, esquecem do corpo, por considerá-lo desnecessário e inclusive fonte de sentimentos, que os sentimentos são prejudiciais ao raciocínio.
Esses problemas em relação à visão corporal só pioram quando se fala especialmente de mulheres. Muitas mulheres, por causa de sua criação, lidam com seu corpo como objeto masculino, ou seja, até seu casamento ou até começar a namorar, seu corpo pertence ao seu pai, após o casamento ou um início de namoro mais sério, o dono de seu corpo vira seu companheiro amoroso. Se o corpo não nos pertence, então devemos agradar o dono desse corpo. Esse é o pensamento das mulheres chinesas que enfaixavam os pés de suas filhas e das mulheres chinesas que aceitavam ter seus pés enfaixados. Aceitando a dor e o sofrimento ao andar, só para se sentir atraente ao seu parceiro. Muitas mulheres contemporâneas se encaixam nesse perfil também. Fazendo o que agrada seu marido ou namorado.
Outra visão corporal problemática da mulher é quando ela acredita que seu corpo é apenas um utilitário para conseguir o que se deseja, como um namorado, ou até se encaixar num padrão de beleza esperada e moldada pela mídia. O problema é que muitas mulheres quando não se sentem encaixadas nesse padrão de beleza modificam o corpo sem se preocupar com ele. Cirurgias plásticas, roupas, e sapatos que fazem mal ou machucam e dietas malucas são exemplos dessa visão utilitária do corpo feminino. Essa mulher sofre com dores nos pés, mas se acostuma com essas dores, anestesiando seus pés com o costume do uso de sapatos de salto alto. Se não aguenta, faz cirurgias para aliviar as dores. O ideal não seria deixar de usar sapatos que nos machuque os pés?
A sociedade, através da mídia e do que apreendemos dentro da nossa família, nos impõe essa visão corporal feminina e a considera normal. Quando conhecemos mulheres que se diferenciam desse costume são estranhas, masculinizadas, desleixadas ou até mesmo “hippies”.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

O Corpo Feminino

Nu Feminino de Robert Mapplethorpe, 1987

*Esse texto eu fiz para um curso de extensão de consciência corporal (2009 e 2010) e decidi publicar aqui*

Durante o Feudalismo, a mulher era apenas parte da propriedade masculina, até seu casamento era propriedade de seu pai, que em seu casamento a vendia a um homem que se transformaria em seu marido. É claro que haviam algumas mulheres que viviam com certos privilégios, mas mesmo essas eram propriedade dos homens. Pensemos no corpo feminino como um móvel da casa do camponês ou do nobre, quanto mais rico o dono mais bem cuidada ela era. Nessa época a Igreja Católica, considerava a mulher como a tentação, muito bem mostrado no livro O Nome da Rosa1.
O Feudalismo começa a entrar em decadência por volta do século XV ou XVI, nessa época o Renascimento está bem estruturado na Europa e começam as navegações pelos demais continentes. Nesse momento entram em cena outros corpos femininos, corpos de indígenas americanas e africanas, que sofriam violência sexual de navegadores europeus, se uma européia já era vista como objeto, mesmo sendo batizada e visitando a igreja, imagine como seriam vistas mulheres “sem alma”. Nessa mesma época, a Europa passava por uma grande mudança, o antropocentrismo começava a tomar conta, Deus já não era tão importante quanto o homem. Assim, começam pesquisas a procura de ciências novas e para retomar as antigas ciências gregas. No início da Reforma Protestante algumas mulheres começam a se fazer notar em cortes européias. A Rainha Virgem foi uma das grandes mulheres dessa época: Elizabeth foi a primeira herdeira mulher do trono inglês que não casou-se, morrendo sem herdeiro.
Também entre os séculos XV e XVI, começou o Tribunal de Ofício, a Inquisição, onde muitos cientistas e mulheres foram queimados acusados de bruxaria. Uma dessas mulheres, foi Joana d'Arc que lutou ao lado dos soldados de França contra os ingleses, queimada na fogueira por bruxaria, sendo vista como tal até o final do século XIX. Seu corpo foi queimado em praça pública pois Joana afirmava ouvir vozes de santos, que o Tribunal acreditava serem vozes demoníacas. Após dar a vitória a França e ser esquecida por séculos, ou apenas lembrada como bruxa, no século XX foi beatificada, se transformando na santa padroeira da França.
Com isso chegamos a Idade Moderna, ao início da Revolução Industrial, onde mulheres, homens e crianças de classe baixa eram vistos como simples força de trabalho, com vida quase escrava. Nesse momento a diferença entre homens e mulheres era exatamente o desrespeito sofrido pelas mulheres em casa e nas fábricas, sofrendo abusos, espancamentos, isso sem contar o salário mais baixo. Apesar de também trabalhar, a mulher ainda era propriedade do homem, então nesse momento o corpo feminino se transformou em propriedade de seu marido ou pai e de qualquer homem que estivesse acima dela no seu trabalho operário, sendo submetida a regras rigorosas e a abusos de seus chefes e colegas de trabalho. Contudo, as mulheres eram em maior quantidade no trabalho das fábricas e nesse momento a mulher era vista como um homem imperfeito, e por sua imperfeição era inferior ao homem, sem direitos de cidadão, sem muita liberdade. Nessa época a mulher tinha de ser desprovida de qualquer traço de feminilidade e sedução, mantendo a sexualidade feminina como um tabú. Para ser uma mulher correta precisaria ser mãe e esposa, sem qualquer manifestação de desejo sexual. Com isso muitas mulheres passaram a utilizar seu corpo para realizar os desejos dos maridos que tinham esposas corretas como mandava o figurino. De certa forma, se não existisse a esposa correta não existiria a prostituta e vice e versa.
No século XIX, algumas mulheres começaram a se reunir para reivindicar direitos que os homens tinham mas não eram dados as mulheres. De início foi a busca por votos, acreditava-se que esse direito abriria portas a outros direitos, mas após conseguir o direito ao voto, as lutas começaram a esfriar e diminuiram aos poucos. Enquanto isso o corpo feminino se manteve como propriedade dos homens.
Foi no século XX que as revoluções voltaram a tomar mais força, foi na década de 30 e 40 que os países socialistas e capitalistas começaram a absorver as reivindicações femininas, dando as mulheres mais um pouco de individualidade, durante a Segunda Guerra as mulheres voltaram a ter força e voz trabalhando fora de casa, para manter a economia mundial funcionando enquanto seus maridos lutavam por seus países. Com o término da guerra, tudo voltou a ser como era antes, mulheres como donas de casa, propriedades de seus maridos ou pais. Com a década de 60 veio a luta pela liberdade sexual, começando assim a luta pela liberdade e autoridade da mulher sobre o seu corpo. O movimento Hippie que reivindicava paz e liberdade de expressão ajudou muito nas lutas feministas, essa revolução é considerada como a segunda revolução feminista da história do mundo ocidental. A terceira revolução feminista foi na década de 90, onde aumentaram as conquistas. Aqui no Brasil, as mulheres passaram a poder acusar seus maridos de estupro: o que era uma obrigação da mulher para seu marido virou uma decisão de ambos, escolha do casal e não mais do homem. Também foi tirado de nosso código civil o direito do marido de devolver a esposa se ela não tiver casado virgem, ou seja, a mulher deixou de ser aos olhos da lei um objeto do homem, tendo direito de escolher o que fazer com seu próprio corpo.
O direito ao voto, ao divórcio, liberdade sobre suas decisões, direito a estudar, de trabalhar, o salário quase igual ao dos homens, uso de contraceptivos e em alguns países a liberdade de decidir interromper a gravidez. Essas conquistas deram uma grande liberdade da mulher sobre o seu próprio corpo e criou uma outra escravidão: a obrigação de se libertar de tabús.
As mais novas gerações femininas podem usufruir de seu próprio corpo, podem se dar o direito de sentir prazer, de viver como desejam, mas junto dessa liberdade corporal veio uma prisão, essa obrigação de ser livre, ter pensamentos avançados e fazer o que todos fazem. Muitas meninas e mulheres acabam se sentindo pressionadas a fazer com seu corpo o que os outros dizem certo. Viramos escravas da liberdade do nosso corpo, nos transformamos em mulheres que não podem desejar filhos, casamento ou viver uma vida sem excessos, afinal, agora podemos fazer tudo que não podíamos.
Esse é o meu questionamento: o corpo feminino realmente está liberado, ou a liberdade criada pelas mulheres saiu de controle e se transformou novamente em prisão, sem direito a escolhas diferentes das escolhas vistas como certas pelas demais mulheres? Fazer valer as conquistas que ganhamos em anos de luta não é se forçar a agir da forma que não queremos. As mulheres ganharam o direito de escolher o que fazer da sua vida, não obrigadas a mudar de prisão. As mulheres continuam presas, só mudaram as algemas.

Bibliografia:
1 ECO, Umberto 1980, Il nome della rosa tradução por Maria Celeste Pinto, Círculo de Leitores
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